Marcus Hemerly
Sobre a terra, antes da escrita e da imprensa, existiu a poesia - Neruda
Textos
LABIRINTO DE ESPELHOS

     Para a maioria das pessoas, morar em uma casa na qual houve um crime violento seria motivo de ojeriza. Na verdade, para a maioria das pessoas,  sequer adquirir um local no qual alguém tivesse morrido,  seria o suficiente para despertar dúvidas. Para Ricardo, aquele era motivo de fascínio e excitação,  por isso, ele havia comprado o pequeno palacete conhecido como "Castelinho", edificação dissonante dos demais prédios  existentes naquela movimentada rua paulistana.  Decerto, existiam outros prédios históricos no centro da cidade que se diferenciavam dos arranha-céus que vigiavam soberanos os desavisados transeuntes, que imersos em seus próprios pensamentos, voluntária ou involuntariamente, não se davam conta dos horrores diários da metrópole. A cidade irradiava aquela estranha magia, que mesmo se erigindo paralelamente, os prédios antigos e novos se agregavam sem manter um tom de desarmonia,  exceto pela construção recém restaurada, concebida originalmente em estilo medieval, no ano de 1912, por uma das mais ricas e tradicionais famílias da época.  No ano de 1937, ocorreu um caso que para sempre marcaria a crônica  policial brasileira, distinguindo-se não apenas pelo fato de a dinâmica dos eventos nunca ter sido solucionada  - a versão oficial apontava assassinato seguido de suicídio - e pela particularidade de que nos anos vindouros, o lugar seria conhecido como assombrado. 

     Os únicos habitantes,  além dos viciados em crack que buscavam abrigo da chuva e do frio nas noites do rigoroso inverno de São Paulo, seriam as vozes, gritos e ruídos indeterminados que dali irrompiam nas madrugadas, os quais seriam atribuídos aos próprios moradores de rua, imersos  em seu torpor alucinógeno. Salvo eventos isolados de aparições não explicadas, quaisquer episódios fora do comum eram classificados como  fruto da imaginação dos habitantes reais. Após a renovação do bairro,  o palacete havia sido alvo de restauração para fins turísticos, mas o projeto não seguiu em frente, o que proporcionou a Ricardo sua aquisição sem os transtornos e a carestia de um reforma. Como professor universitário de história e antropologia,  seus rendimentos seriam insuficientes,  no entanto,  ele havia amealhado considerável fortuna através de investimentos com o dinheiro de sua esposa, Rebeca, que vinha de uma família conhecida no meio da representação comercial e possuíam várias concessionárias de veículos,  que agora eram dela.  Sua paixão por lendas e casos criminais não era compartilhada pela companheira, como ateia, era cética e indiferente a lendas e assombrações, mas após um vislumbre da luxuosa morada, fora facilmente persuadida,  afinal,  ela sempre teve vontade de morar em um duplex.
     
     Eles discutiam animadamente enquanto dirigiam-se para sua nova casa, o pai dirigia o carro da família, enquanto ouvia o entusiasmo do filho ao descrever como iria se gabar aos colegas de faculdade, que agora moraria em uma casa mal-assombrada. O pai lhe assegura que não se trata bem disso, numa tentava inexitosa de dissuadi-lo de tais pensamentos.
     - Não seja bobo Fernando, você sabe muito bem que essas coisas não existem, respeito as crenças alheias, mas nada nunca foi provado. Não foi você quem me disse que os caça -fantasmas daquele programa, como é mesmo?
     - T.A.P.S – responde o filho, agora parecendo mais alheio à conversa.
     - Isso, não foi você quem me disse que eles conduziram um experimento aqui e nada foi encontrado? É evidente que as pessoas ouviam coisas por aqui, até pouco tempo atrás essa parte do centro da cidade era tomada por cracudos, o que você esperava que eles ouvissem, hinos religiosos ou as vozes em suas cabeças?

     A esposa o olha em tom de reprovação diante da pilhéria, não gostava que ele chamasse os dependentes químicos daquele jeito, ela nutria uma espécie de pena culpada, gostaria de fazer algo, mas também gostaria que eles se mantivessem a distância. Quando o que se vê de um lado proporciona repugnância, olha-se para o lado contrário.
     - Não diga isso, meu bem, um homem culto, internacional como você não devia usar essas definições – censura a mulher em tom de ironia, lançando-lhe um sorriso.
     - Você preferiria que eles ainda estivessem aqui aos montes, como aqueles outros moradores ali perto da estação da luz?
     - Touche! – diz Rebeca, levantando as mãos em sinal de rendição.
     - Aliás, nós não vamos ficar aqui por muito tempo, será uma espécie de casa de campo, mas no meio da cidade, apenas enquanto termino o novo livro, cujo último capítulo, como vocês sabem muito bem, trata desse pequeno castelo que será nossa fortaleza por algum tempo – Ele não pode deixar de pensar que o mundo havia mudado, em sua época, aquilo seria motivo de chacota na escola, o moderno bullying, mas os jovens pareciam animados com aqueles temas poucos ortodoxos, ou talvez, o que mais ortodoxo do que a ideia de vida e morte?
     - Eu me sinto como aquelas pessoas daquele casa nos EUA, aquela...que nós assistimos ao filme... – tenta se recordar o jovem, que redireciona sua atenção para a conversa.
     - Amityville, sim, mas a família Lutz foi considerada durante muito tempo como impostores, o casal Warren investigou aquela propriedade e fizeram um grande alvoroço a respeito, mas permanecerá uma eterna incógnita - lembra o patriarca olhando-o de esguelha.
     - Posso chamar os colegas para uma festinha na casa, quando vocês tiverem saído? – pergunta o filho, esperançoso.
     - Não - responde o pai, agora definitivamente sério a respeito – não quero nossa casa fedendo a maconha, conheço muito bem esses jovens de humanas, sorte sua que você não é meu aluno, senão ouviria meus discursos moralistas a respeito.
     - Por que acha que decidi fazer faculdade do outro lado da cidade?

     Um olhar de reprimenda é direcionado ao jovem no banco de trás, transmudando-se em seguida, para amorosa condescendência, quando os três finalmente adentram os portões da bela casa com três sacadas e uma torre central, que remetia a castelos feudais e quando de sua construção, era um símbolo de poder e imponência para a distinta família que o erigira. Eles saem do carro simultaneamente e param por alguns segundos, lado a lado, contemplando aquele edifício misterioso que existia há mais tempo que qualquer um deles, e que provavelmente continuaria a existir, quando eles não mais habitassem o mundo.

 
***

     Na primeira noite, as expectativas foram atendidas, o entardecer havia sido tranquilo, uma pizza, um filme em família, todos debaixo do cobertor na sala de estar. Havia surpreendido Ricardo o fato de Fernando não ter saído em uma noite de sábado, o rompimento com a namorada era recente mas seria natural que já estivesse retornado a vida noturna, mas estava feliz em ver todos reunidos. Rebeca e Fernando já haviam se recolhido e às três da manhã, Ricardo escrevia freneticamente, entusiasmado por como aquelas paredes pareciam inspirá-lo. Ainda que não se tratasse de um trabalho de ficção, mesmo os casos reais deveriam ser narrados em uma prosa apurada e instigante para prender os olhos do leitor, eles sempre mereciam mais.

     Uma coisa não havia escapado aos olhares de todos, a imensa e quase desproporcional quantidade de espelhos distribuídos pela casa, o arquiteto que cuidou da reforma e posterior decoração parecia curiosamente aficionado por eles. A família não saberia que o arquiteto havia se enforcado naquela manhã, encontrado nu, com um cadarço envolta do pescoço e as pontas amarradas na maçaneta do banheiro. Considerando a pouco altura, a pericia chegou a cogitar a hipótese de homicídio, mas quantas pessoas já haviam se suicidado em alturas menores? Naquele momento, ele sente a temperatura lhe incomodar, o início de inverno estava excessivamente frio, a tarde havia marcado 12 graus e diminuía mais com a noite, mas era algo além disso, como uma presença em vez de uma simples corrente de ar invernal. Ricardo se vira abruptamente para se assegurar de que estava sozinho na biblioteca em estilo vitoriano, onde uma miríade de edições clássicas rodeava a sala, como que lembrando que o conhecimento transmitido era imortal, e o corpo humano era frágil e precipitava-se a cada dia rumo ao fim
     - Não há ninguém, Ric, porra...não escute as histórias do garoto – pensa enquanto dirige seu olhar do computador para a coruja de cerâmica que utilizava como peso de papel. Aquela maldita coruja nunca lhe pareceu tão sinistra. Retornando sua atenção para o computador, ele vê o reflexo de um homem magro, alto, trajando vestimentas de época. Num sobressalto ele deixa cair o copo de boubon com gelo que repousava no canto da mesa de vidro.
     - Mas que mer...- suas palavras são cortadas por algo que inicialmente parecia um reflexo no espelho, mas que aos poucos tomava forma de um cenário, como um filme reproduzido em um televisor. A figura corpulenta, de face alva, mantinha um olhar fixo e inexpressivo, morto, como o um olho artificial, mas de alguma forma, o escritor sabia que era comandado a manter a atenção na cena que se desdobrava no espelho acima de uma escrivaninha que continha um de seus livros anteriores, este, sobre o famoso caso do advogado do diabo. Não podia ser! a imagem era ele dirigindo o carro que possuía anteriormente, uma caminhonete comprada há alguns anos. Ele se lembrava daquele dia, rumava de volta para a capital, após uma breve pausa no litoral de Santos, e distraíra-se por um segundo enquanto acendia o cigarro. Parara de fumar depois daquele dia, sem nenhuma crise de abstinência, contudo, o vício foi substituído pela bebida, que se acentuava vertiginosamente.

     Ele via claramente o tranco do carro, como se tivesse passado por cima de um tronco. Após constatar pelo retrovisor que se tratava de um homem, que se mantinha estático, ele para o carro e aguarda alguns segundos. Como nota que o homem movia os braços vagarosamente, se pôe de volta à estrada, antes que pudesse ser identificado. Nos dias seguintes, descobriria que as pernas da vítima, Francisco, dizia o telejornal, haviam sido esmagadas pelo carro, cujo condutor fugira sem prestar socorro, mas ele havia morrido afogado em decorrência das fortes chuvas daquela noite e pela paralisia que o impedira de se salvar. Aquilo aconteceu há dois anos e constantemente sua memória era avivada, similar a um hábito diário, como uma oração antes de dormir.

 
***

     No andar de baixo, Fernando assistia a um vídeo no notebook em seu quarto, um pornô leve, que lhe provoca qualquer entusiasmo. Ele não conseguia se relacionar com uma mulher há meses, ou mesmo se aliviar sozinho. Não quando pensava no que havia acontecido da última vez. Ele participava de uma festa na casa de um amigo, os pais não estavam e os jovens haviam contratado uma prostituta. Era cara, mas prometera fazer de tudo; ele e o outro rapaz estavam se divertindo por último, um strip antes da mulher ir embora. Haviam notado que ela bebera muito e sua fala cada vez mais enrolada no decorrer da noite, até que Fernando começou a penetrá-la...

     Ele é subitamente desperto de suas lembranças pelo reflexo de um homem na tela do notebook, o terno de modelo ultrapassado parecia sujo e amassado, estranhamente, pensou que fosse uma brincadeira de seu pai, mas quando a criatura lhe estendeu as mãos, pode notar as manchas do que pareceria ser algo enegrecido, como lama ou sangue seco. Libertando um grito e levantando-se da cama, foi impedido de emitir ulteriores sons tamanho o pavor, ao passo que teve ciência, como que por uma mensagem telepática, que a entidade que se amoldava diante de seus olhos queria que ele olhasse para o espelho próximo à janela fechada. Entre a moldura do vidro, seu reflexo é substituído pela cena que há poucos segundos era reprisada em sua mente, ele via a si próprio, estocando cada vez mais forte por trás da loira meretriz, que vomita sobre os sofá e aos poucos, por demais embriagada e já semi-inconsciente, morre, sufocada em sua própria última refeição, um hambúrguer parcialmente digerido, vodca e sêmen. Ao se deparar com o quadro dantesco, os jovens já também desnorteados pelo êxtase consumido no início da noite, se desesperam e após breve discussão, chegam à conclusão de que ninguém daria falta de uma puta.
     - Davi, você tem uma mala grande...? - pergunta Fernando – saliva escorrendo de seu queixo anguloso.
     - O que você está pensando em fazer.? Tá louco, caralho?
     - Alguma sugestão? Você quer chamar a polícia e tentar explicar isso? Como iremos convencê-los de que não a matamos de propósito, tão doidões que estamos, ou porque ela se negou a liberar o rabo ou algo assim? Venha, me ajuda a levantá-la – ordena Fernando, parecendo agora mais resoluto. Os dois levam o corpo magro e agora totalmente flácido da prostituta até o banheiro, aconchegando-o dentro da banheira antiga, comum àquele tipo de edificação. 
     - Temos que limpar essa bagunça - disse Davi - agora já totalmente ciente de que não havia outra escolha. Após ligar o chuveiro e deixar água envolver o cadáver durante alguns minutos, os inusitados cúmplices o levam até uma grande mala utilizada pelos pais do anfitrião, em viagens internacionais. Depositando o corpo sem vida dentro da mala, dobram as pernas sobre o quadril, até que a estrutura óssea impede o cerrar da tampa. Fazendo uma força já intensificada pelo efeito da droga, conseguem quebrar os joelhos do cadáver depois de várias tentativas, fechando a mala em seguida. Um olhar pesaroso é a última coisa de que Fernando se lembra, antes de arremessarem a mala da ponte, no rio Tietê.

     Eles nunca checariam jornais, eles nunca procuraram saber seu nome, apenas uma promessa velada de nunca mais tocar no assunto. Obviamente, eles se lembrariam de tudo, de forma recorrente, conscientemente ou não, sozinhos, sem qualquer tipo de verbalização a não ser por uma memória contínua, como uma agulha que penetra a consciência a cada dia que passa, um flagelo constante e profundo, clamando por uma derradeira ponta de misericórdia

 
 ***

     No outro aposento da casa, a bela mulher se encontrava deitada na cama, uma camisola branca envolvia seu corpo bem torneado. O estado letárgico do quase adormecimento a envolve, quando subitamente sente a temperatura do quarto diminuir até o ponto de poder ver sua respiração. Em sobressalto, percebe que mais alguém se encontrava naquele recinto; ela não queria acreditar que a casa havia sido penetrada por um invasor, como numa cena de filme em que a família fica a mercê de bandidos inescrupulosos. Rebeca olha ao redor com um desespero crescente, até que finalmente enxerga uma figura no canto do quarto mal iluminado. O silêncio se prolonga por alguns segundos que parecem durar uma eternidade, até que uma senhora de aparência septuagenária se materializa em formas mais distinguíveis diante do pé da cama. A mulher apresenta um olhar severo, condenador, uma surpresa genuína de que alguém pudesse estar em sua morada, ansiosa por explicações.

     A entidade quase transparente estende o indicador até o espelho contornado por uma moldura dourada, transmitindo a imagem de uma anciã prostrada em uma cama, um olhar agonizante, vítreo, dirigido fragilmente ao nada. Na porta entreaberta, surge uma adolescente, aparência fria e resoluta que traduzia a face mais jovem de Rebeca. Ela se aproxima da cama segurando um travesseiro, que aplica com leve pressão sobre o rosto da velha moribunda, depois com mais força e durante muito tempo até que a mulher para de se contorcer, alentando o sofrimento do senhora e ds pesares de cuidar de uma doente, Era uma vontade que não queira admitir durante muito tempo, mas que seria uma libertação para ambas. Ela não odiava sua avó, apenas aquilo que a doença havia feito com ela, mas não a amava para continuar a dedica-lhe os cuidados exaustivos por muito tempo, então ela resolvera matá-la, já até sabia como. As pessoas morriam tão rápidos daquela forma nas películas de mistério, “mas seria assim na vida real?” ela se perguntava. Ora, aquilo não tinha importância...

     Ela se lembrava muito bem daquele dia, mas não havia qualquer vislumbre de arrependimento. Nesse momento, o filho do casal subitamente abre a porta segurando uma faca de cozinha, de maneira veloz e alucinada se dirige à mulher deitada na cama e golpeia seu pescoço com um só movimento de mão. Seu olhar de descrença vai perdendo o foco, enquanto o gorgolejar do sangue que irrompe de sua carótida seccionada se espalha pela cama como uma aspersão macabra. Alheio a tudo à sua volta, Fernando se dirige ao primeiro andar onde Ricardo se mantém inerte observando o espelho, como se auto flagelando mentalmente pelo que havia feito, pela culpa, pelas lembranças, quando é surpreendido não por uma nova aparição, mas pelo próprio filho que lhe estoura o globo ocular com a faca, introduzindo-a até a base do cérebro, deixando-a lá repousar enquanto o corpo de seu pai desliza até a base da mesa do escritório até atingir o chão.

     O rapaz anda até a sacada do segundo andar, vagarosamente, como em estado catatônico, onde uma força irresistível o convidava para a beira da varanda. A bela São Paulo se descortinava ao fundo, um bairro que exalava maior imponência quando da construção do castelinho no início no século vinte, mas que assim como a garoa, apenas remetia a um estado efêmero, como a aceitação de que nada permanece obscurecido para sempre. Ele sorri, chora, grita, até quando se lança do segundo andar e seu corpo atinge o chão rompendo a caixa craniana.


     Eles haviam pecado, cada um a seu modo, e suas ações os perseguiriam em morte como haviam perseguido em vida, de modo similar às três almas naquela fatídica noite no ano de 1937, quando uma briga entre família havia feito com que o mais jovem dos filhos alvejasse a mãe e o irmão, ceifando a própria vida, na sequência. Fratricídio e matricídio eram palavras horrendas. Decerto, não as palavras em si, que são receptáculos voluntários de seu significado, mas o ato de violência, assim como qualquer ato de violência, havia deixado uma sequela, como uma trilha num labirinto que se estendia pelas décadas, para as almas aprisionadas naquela casa e a família extinta naquela noite. Para sempre os mortos de forma não natural habitariam o castelinho, às vezes, cientes de seu fim, outras não, afinal, a expiação era a eterna repetição.



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Marcus Hemerly
Enviado por Marcus Hemerly em 12/12/2019
Alterado em 12/12/2019
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